2010
Produção Docente
Escola Parque
Rio de Janeiro, 13 de maio de 2010.
POR UMA PEDAGOGIA DA INTELIGÊNCIA
*Patrícia Konder Lins e Silva

O construtivismo na escola nasceu de uma epistemologia, de um pensamento filosófico. É uma interpretação para uma teoria do conhecimento que gerou uma aplicação pedagógica. A própria origem num pensamento filosófico tende a gerar diversos construtivismos, pois são diversas as interpretações possíveis e, portanto, diversas as aplicações pedagógicas. A base comum é o reconhecimento de que o ser humano nasce inteligente e constrói conhecimento.

A chamada escola tradicional também não é uma única, pois há muitos métodos diferentes propostos para ensinar conteúdos a crianças e jovens. Seu ensino é considerado hoje pouco eficaz porque a enorme produção de conhecimento sobre aprendizagem dos últimos 50 anos mostrou que a criança é capaz de pensar sobre a realidade com que lida mesmo sem ser exposta a qualquer método ou metodologia. Embora possa parecer que os métodos facilitam o ensino, nenhum deles resolve a questão da aprendizagem, pois não levam em conta que o aprendiz pensa e acabam limitando a capacidade de refletir e compreender.

Há escolas que acreditam que a reprodução de conteúdos é suficiente para a aprendizagem e há escolas que reconhecem que a inteligência humana é uma característica que precisa ser desenvolvida, que todo ser humano pode aprender e propõem uma pedagogia que imerge o aluno numa cultura do desenvolvimento da capacidade de pensar. Simplificando: há escolas que ensinam e há escolas que ensinam a aprender. E aprender é para a vida toda.

A chamada escola tradicional propõe um treinamento de conteúdos, muitas vezes sem relação com a vida real, fora de contexto e sem sentido para o estudante; não reconhece a contribuição dos estudos das neurociências para a compreensão da aprendizagem e volta as costas à transformação da realidade promovida pela tecnologia da informática, cuja plataforma induz a novos modos de aprender e de pensar. A dificuldade de lidar com mudanças costuma causar forte reação de apego a referências antigas.

Hoje o aluno precisa aprender a descobrir o conhecimento no turbilhão de informação encontrado na internet. Não basta o que recebe por doação de um professor. O aluno precisa aprender a solucionar problemas e não a aprender soluções prontas. Precisa, também, aliar o desenvolvimento intelectual ao desenvolvimento moral. E, ainda, precisa se dedicar ao trabalho cotidiano de se preparar para enfrentar discussões éticas, epistemológicas, culturais, sociais. O papel do professor é orientar o desenvolvimento dos alunos, de sua capacidade de pensar e de sua formação para a cidadania. A ele cabe propor problemas reais e orientar a construção das soluções. É na ação que os alunos adquirem o conhecimento instituído. A escola para os dias de hoje é muito difícil para o aluno e muito trabalhosa para o professor, mas é a que é necessária para os que vão viver sua vida adulta durante o século 21.

Uma interpretação construtivista encoraja uma pedagogia da inteligência, que incentiva os jovens a usarem sua capacidade de pensar para adquirir conhecimentos. Formados na reflexão, na difícil tarefa de pensar autonomamente e no reconhecimento do valor do conhecimento, poderão participar dos debates necessários para o enfrentamento das questões éticas que serão preponderantes neste século como consequência das revoluções científicas em curso - a revolução biomolecular, a revolução quântica e a revolução da inteligência, todas com a potencialidade de romper os fundamentos da vida e da matéria.

É um direito das gerações serem preparadas para o seu tempo.

* Patrícia Konder Lins e Silva é pedagoga, fundadora e diretora da Escola Parque

www.escolaparque.g12.br