2010
Produção Docente
Escola Parque
Rio de Janeiro, 19 de abril de 2010.
Algumas reflexões sobre disciplina
Sância Veloso

Frequentemente nos perguntamos por que uma turma fica mais agitada em uma aula do que em outra. Provavelmente, nunca teremos uma resposta conclusiva, mas é comum explicarmos apontando que os alunos são desorganizados, são indisciplinados ou são muito agitados ou, ainda, que não têm atenção dos pais e outras tantas frases que escutamos no ambiente escolar. Essas afirmações não trazem resultados para a mudança de comportamento dos alunos, nem nos isentam dos problemas da turma.

Se pensarmos a questão sob um ponto de vista mais inclusivo, onde estão aluno, professor, equipe pedagógica, enfim, a instituição, temos que levantar outros questionamentos e hipóteses que nos levem a reflexões e, consequentemente, a mudanças e construções efetivas no comportamento de nossos alunos e de nós mesmos.

· Que tipo de relação estabeleço com meus alunos?

· Deixo claros meus objetivos para os alunos?

· Acho importante as tarefas que passo?

· Faço questão que meus alunos participem da minha aula?

· Consigo passar para meus alunos empolgação e paixão pelo conhecimento?

· Respeito o conhecimento prévio e as competências de cada um deles?

· Proponho dinâmicas diferentes?

· Permito que meu aluno expresse suas opiniões e seu conhecimento prévio ou hipóteses sobre o assunto?

· Permito que meus alunos se desrespeitem e debochem uns dos outros?

· Que outras mensagens passo, com meus atos, aos meus alunos?

· O que é efetivamente indisciplina?

· Que tipo de disciplina se deseja conquistar?

 · Qual a relação entre disciplina e aprendizagem?


Um bom ponto de partida é pensarmos que a “disciplina” não tem só uma função reguladora das atitudes e dos comportamentos, mas que tem, também, uma função constitutiva do processo de aprendizagem. Podemos defini-la como um conjunto de procedimentos e atitudes que possibilitam uma forma de ver o mundo, de se relacionar, de aprender, resolver problemas e criar. No ambiente escolar, esse conjunto de procedimentos e atitudes se traduz em regras que permeiam o cotidiano, tais como exigência de cumprimento de horários, acatamento a prazos, entrega de tarefas nos momentos estabelecidos, planejamento de duração de ações. Há regras que dizem respeito ao uso adequado do espaço, à organização das coisas, ao bom uso dos materiais etc.

Como espaço de socialização e coletivização, a escola regula também as relações dentro e fora de sala de aula: saber esperar sua vez, respeitar a pergunta do colega, mostrar-se educado em relação às diferenças, compreender a individualidade e libertar-se de estereótipos.

Sabemos que para garantir uma aprendizagem significativa é preciso tranquilidade e calma para aprender a usar a memória, evoluir na expressão da linguagem, administrar estados de emoção, concentrar-se; e diferenciar o descrever do analisar, o comparar do classificar e o deduzir do observar.

Ao pensarmos em tudo o que abrange a “disciplina” numa escola, precisamos definir o que esperamos de nossos alunos e qual é o nosso papel, como educadores, neste processo. Os objetivos, as atitudes e procedimentos em nossas áreas de conhecimento e em nossas ações pedagógicas devem estar muito claros para nós mesmos para que possamos torná-los compreensíveis para nossos pré-adolescentes, adolescentes, nossos jovens. Desta forma, ganham significado as sanções advindas do não cumprimento de combinações e regras e a disciplina escolar pode ser vivenciada a partir de um ponto de vista da apropriação de práticas relacionais e não a partir de uma perspectiva moral.

A “disciplina” é uma ferramenta importante para a construção da autonomia intelectual e moral. A re-significação do conceito de “disciplina” em suas variadas facetas certamente gera aulas mais tranquilas e uma aprendizagem mais efetiva, com mais respeito, com atitudes mais respeitosas entre todos os atores de uma sala de aula. 

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