Frequentemente nos perguntamos por que uma turma fica mais agitada em uma aula do que em outra. Provavelmente, nunca teremos uma resposta conclusiva, mas é comum explicarmos apontando que os alunos são desorganizados, são indisciplinados ou são muito agitados ou, ainda, que não têm atenção dos pais e outras tantas frases que escutamos no ambiente escolar. Essas afirmações não trazem resultados para a mudança de comportamento dos alunos, nem nos isentam dos problemas da turma.
Se pensarmos a questão sob um ponto de vista mais inclusivo, onde estão aluno, professor, equipe pedagógica, enfim, a instituição, temos que levantar outros questionamentos e hipóteses que nos levem a reflexões e, consequentemente, a mudanças e construções efetivas no comportamento de nossos alunos e de nós mesmos.
· Que tipo de relação estabeleço com meus alunos?
· Deixo claros meus objetivos para os alunos?
· Acho importante as tarefas que passo?
· Faço questão que meus alunos participem da minha aula?
· Consigo passar para meus alunos empolgação e paixão pelo conhecimento?
· Respeito o conhecimento prévio e as competências de cada um deles?
· Proponho dinâmicas diferentes?
· Permito que meu aluno expresse suas opiniões e seu conhecimento prévio ou hipóteses sobre o assunto?
· Permito que meus alunos se desrespeitem e debochem uns dos outros?
· Que outras mensagens passo, com meus atos, aos meus alunos?
· O que é efetivamente indisciplina?
· Que tipo de disciplina se deseja conquistar?
· Qual a relação entre disciplina e aprendizagem?
Um bom ponto de partida é pensarmos que a “disciplina” não tem só uma função reguladora das atitudes e dos comportamentos, mas que tem, também, uma função constitutiva do processo de aprendizagem. Podemos defini-la como um conjunto de procedimentos e atitudes que possibilitam uma forma de ver o mundo, de se relacionar, de aprender, resolver problemas e criar. No ambiente escolar, esse conjunto de procedimentos e atitudes se traduz em regras que permeiam o cotidiano, tais como exigência de cumprimento de horários, acatamento a prazos, entrega de tarefas nos momentos estabelecidos, planejamento de duração de ações. Há regras que dizem respeito ao uso adequado do espaço, à organização das coisas, ao bom uso dos materiais etc.
Como espaço de socialização e coletivização, a escola regula também as relações dentro e fora de sala de aula: saber esperar sua vez, respeitar a pergunta do colega, mostrar-se educado em relação às diferenças, compreender a individualidade e libertar-se de estereótipos.
Sabemos que para garantir uma aprendizagem significativa é preciso tranquilidade e calma para aprender a usar a memória, evoluir na expressão da linguagem, administrar estados de emoção, concentrar-se; e diferenciar o descrever do analisar, o comparar do classificar e o deduzir do observar.
Ao pensarmos em tudo o que abrange a “disciplina” numa escola, precisamos definir o que esperamos de nossos alunos e qual é o nosso papel, como educadores, neste processo. Os objetivos, as atitudes e procedimentos em nossas áreas de conhecimento e em nossas ações pedagógicas devem estar muito claros para nós mesmos para que possamos torná-los compreensíveis para nossos pré-adolescentes, adolescentes, nossos jovens. Desta forma, ganham significado as sanções advindas do não cumprimento de combinações e regras e a disciplina escolar pode ser vivenciada a partir de um ponto de vista da apropriação de práticas relacionais e não a partir de uma perspectiva moral.
A “disciplina” é uma ferramenta importante para a construção da autonomia intelectual e moral. A re-significação do conceito de “disciplina” em suas variadas facetas certamente gera aulas mais tranquilas e uma aprendizagem mais efetiva, com mais respeito, com atitudes mais respeitosas entre todos os atores de uma sala de aula.