2010
Produção Docente
Escola Parque
Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 2010.
Proteger as crianças do mundo
Patrícia Konder Lins e Silva

Assistimos consternados, na televisão, ao sofrimento do Haiti. Vimos um país devastado pela natureza incontrolável e admiramos a valiosa solidariedade internacional que, prontamente, se desencadeou para ajudar o povo haitiano. Também aprendemos a dramática história do país que já tinha a maior parte de sua população em estado de extrema pobreza, como consequência de dívidas insuportáveis com a comunidade internacional, de espoliação, de ditaduras corruptas, muitas vezes apoiadas pela mesma comunidade agora tão solidária. A tentativa dos anos recentes de reestruturação sobre os anos de desmandos não foi suficiente para fortalecer a vida institucional frágil que, diante da catástrofe, se desmantelou inteiramente, o que dificulta a organização da ajuda à população e turva a perspectiva para o futuro.



O drama do Haiti remete à responsabilidade do mundo pelas populações que vivem em penúria extrema. A fome impede de pensar para além da sobrevivência cotidiana, o que embaça a esperança. Crianças subnutridas, submetidas a condições de vida penosas, e que crescem fora de algum sistema educacional, não têm a chance de construir sonhos para planejar um meio de escapar de seu destino sofrido.



Se para a humanidade a tragédia do Haiti abala as crenças e as certezas, para os educadores faz pensar na escola e sua função. A escola clássica, certamente, desaparece na situação-limite. Os fatos trágicos rompem a rotina e tiram inteiramente o significado de currículos e aulas ortodoxas naquelas circunstâncias.



Mas os educadores não desaparecem. Pelo contrário, a eles cabe o papel relevante de planejar a proteção e a preparação das crianças para as necessidades do momento e do futuro. Precisam ajudar e amparar crianças e jovens nas circunstâncias em que vivem agora.



No Haiti, agora, é preciso cuidar da sobrevivência e segurança das crianças. Com a higiene precária e o perigo de epidemia, aprender a lavar as mãos é fundamental, assim como evitar áreas insalubres. Com a desintegração institucional, econômica e social, o que importa agora é organizar as crianças e ensinar que o pertencimento ao grupo ajuda na sobrevivência. Saber distribuir a comida e a água potável é aprendizagem básica.



A catástrofe haitiana revelou a indiferença do mundo pelas populações desvalidas e esperemos que venha a reforçar a consciência de que acolher, proteger e educar crianças significa provocar mudanças significativas em qualquer país e na civilização.
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