Rio de Janeiro, 06 de novembro de 2009.

Inteligência se aprende
Patrícia Konder Lins e Silva
Todo ser humano nasce inteligente. Inteligência não é um dom absolutamente determinado pelo encontro de gametas. Inteligência é uma das características, entre várias, que determinam que um ser pertence à espécie humana. Não há um ponto zero em que o ser humano não é inteligente. Ao nascer, o bebê usa imediatamente a inteligência para se relacionar com o mundo externo, reclamando do rompimento do contato estreito com a mãe e estabelecendo relação com quem cuida dele. É o início de um longo e permanente processo de aprendizagem na interação com o meio.
Se todos nascem inteligentes, todos podem aprender. Não há ser humano que não consiga aprender. Mas não basta nascer inteligente e poder aprender. Inteligência não é como a audição ou a visão que, caso não haja nenhuma afecção, logo serão plenamente usadas pela criança. Inteligência se aprende, se exercita e se desenvolve num processo permanente de interação com a experiência que o meio oferece.
Exercitar e fazer funcionar a inteligência vai além de meramente deixar ao sabor do acaso o aprofundamento da reflexão, do exercício do pensamento e da capacidade de raciocinar. O meio, a cultura e o entorno em que se vive exercem papel fundamental na construção de conhecimentos de cada um. Quanto mais variadas as experiências e os desafios que exigem raciocínio e reflexão na solução de problemas, mais a inteligência se estrutura para continuar se desenvolvendo.
Não basta “saber muito”. É preciso “saber lidar” com os conhecimentos, relacionando-os entre si, criando outros, questionando e se encantando com a possibilidade de “saber mais”. O desenvolvimento da capacidade de pensar leva à necessidade de aprofundar a investigação sobre os fatos e fenômenos da realidade, indo além de respostas simples obtidas através apenas das primeiras percepções.
Na sociedade em que vivemos, a escola é, em princípio, a instituição apta para instigar a reflexão, para se aprender a ser inteligente. A escola fornece os desafios cognitivos que tornam os alunos conscientes das perplexidades e encantamentos provocados pelo exercício do pensamento e pela aquisição de conhecimento.
As crianças e jovens vão à escola para desenvolverem sua capacidade de pensar. À escola cabe desenvolver ao máximo essa capacidade de cada um. Os conteúdos escolares, alguns de significado já bastante embaçado e arcaico, devem ser revistos à luz dessa meta, a meta de “desenvolver inteligência”.
A sociedade precisa que a escola forme pessoas capazes de lidar com a realidade cambiante, pessoas capazes de enfrentar desafios, de desenvolver diversos tipos de conhecimento, conscientes de seu pertencimento a uma cultura e de sua responsabilidade pela construção de um mundo mais justo.
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